Por: Mônica Comenale
A Valsa
Numa
pequena cidade escondida no alto das montanhas, a lua cheia iluminava ruas
sinuosas e estreitas. Sapos e grilos limpavam suas gargantas para começarem
mais uma noite de sinfonia. Corujas inquietas ocupavam os galhos das árvores,
morcegos voavam sobre os telhados das casas. Anim um pequeno vaga-lume, pousou
no parapeito da janela de uma bela casa, para tomar fôlego depois de mais um de
seus longos vôos. Ele respirou fundo, alongou suas patas e esticou ainda mais
suas delicadas antenas, depois sem cerimônia espiou ao que se passava através
do vidro. Seus olhinhos curiosos brilharam ao deparar-se com a ampla e
requintada sala, decorada com o requinte próprio de uma família abastada. Anim
ficou fascinado pelo grande lustre com coloridas pedras preciosas, que pendia
do teto sobre a mesa de jantar. Não havia ninguém naquele recinto, surgiu-lhe a
idéia de voar dentro da sala, ele desejou ver mais de perto o lustre, logo
começou a procurar uma fresta entre a janela por onde pudesse passar, quando
ouviu:
__Estão todos dormindo! Ouviram? Estão todos
dormindo! Vamos, saiam logo! Precisamos treinar a valsa, faltam apenas dois
dias para o baile de sábado à noite! –Gritou Tininha à irrequieta formiga,
enquanto andava de um lado para o outro-.
Do alto da estante de livros
deslizou por um fino fio de teia, Criselda a aranha, que bocejou calmamente,
depois resmungou:
__Que tédio..., tenho que passar o dia, me
escondendo nos cantos da casa!
Por debaixo da porta passou
Nico, um ratinho cinza, que logo começou a correr desnorteado por todos os
lados da sala.
__Nico! Pare de correr, ninguém está atrás
de você! –Gritou espantada, Tininha-.
Criselda
pulou da estante, ligeiramente escalou a mesa de jantar, sobre ela passou a
correr de um lado para o outro, tentando observar o que se passava com Nico.
__Pare Nico! Pare de correr como louco, vai
acabar se machucando! –Brava gritou novamente, Tininha-.
Nico ofegante parou diante de
Tininha, que logo lhe censurou:
__Acalme-se, Nico! Parece doido, correndo
para todos os lados... .
__Oh, que lastima... ! Coitadinha, que
triste fim... . Que triste fim, coitadinha... .
Lágrimas começaram a escorrer
dos pequenos olhos de Nico, eram tantas que pingavam no chão.
__O que aconteceu, Nico? –Perguntou aflita,
Tininha-.
__Coitadinha..., ela não teve tempo..., foi
pega de surpresa... . –Respondeu Nico, sem poder conter seu próprio choro-.
__Quem Nico? Quem? –Berrou Tininha, o quanto
pode-.
__Dona Brilda! –Respondeu tristemente,
Nico-.
__Dona Brilda? Ela foi capturada, Nico? –Perguntou
Criselda do alto da mesa-.
__Não, Criselda. Dona Brilda acaba de ser
morta, foi espatifada no chão da cozinha por certeiras chineladas, pela nova
cozinheira que foi contratada.
__Oh, que terrível morte a de Dona Brilda!
__Horrível! Nenhuma barata deveria morrer
como Dona Brilda. Está casa não será mais a mesma sem ela, minha amiga, minha
confidente, minha querida Dona Brilda!
__Dona Brilda..., tão amiga, uma grande
dançarina. –Lembrou-se Tininha, com pesar-.
__Eu vou até a cozinha, talvez Dona Brida
ainda esteja viva... .
__Não Criselda, a cozinheira ainda deve
estar por lá, pode ser perigoso. Eu tenho certeza que ela morreu.
__Quem morreu? –Perguntou o senhor Cromácio,
após surgir veloz por debaixo da porta-.
O silêncio invadiu a sala, o que fez
com que o senhor Cromácio voltasse a perguntar:
__Quem morreu?
Novamente
não houve resposta. Impaciente, senhor Cromácio encarou Tininha perguntando:
__Onde está a minha esposa?
__Na cozinha! –Ao final da frase, Tininha
começou a chorar-.
__Vou até ela. –Respondeu intrigado, senhor
Cromácio-.
__Não! –Gritou Criselda-
__Por que não? O que está acontecendo aqui?
__Uma tragédia! –Disse Nico, inconformado-
Espantado,
senhor Cromácio olhou em direção a fresta da porta e preparou-se para correr
rumo à cozinha, mas foi impedido por todos, ao perceberem sua intenção.
__Saiam da minha frente! –Esbravejou, senhor
Cromácio-.
__Acalme-se. Nico precisa lhe contar algo. –Disse
Criselda-.
__Eu? Eu não, eu não! –Disse Nico-.
__Você é um rato! Um grande roedor, coragem!
O senhor Cromácio precisa saber o que houve com Dona Brilda. –Falou Criselda-.
__Onde está a minha adorada esposa?
Brilda... .
Nico
aproximou-se do senhor Cromácio, e com novas lágrimas em seus olhos contou-lhe
tudo o que viu na cozinha.
__Oh, minha Brilda. Porque a deixei sozinha,
para vasculhar os bueiros da cidade. Se ao menos eu estivesse ao seu lado, a
maldosa cozinheira não a teria matado... . Minha pobre Brilda, estraçalhada no
chão da cozinha... . Tornei-me um triste viúvo está noite!
Pelo
buraco da fechadura surgiu voando Sisquinha, uma pequena mosca que tocava seu
sonoro zumbido na orquestra do baile.
__Boa noite! Peço desculpas a todos, por meu
atraso. –Cumprimentou-os, batendo suas asinhas com seu sorriso simpático,
depois de pousar sobre o candelabro da mesa-.
Sisquinha
logo percebeu que seus amigos choravam preocupada perguntou:
__O baile foi cancelado? Por isso vocês
estão chorando?
__Não, choramos por Dona Brilda! –Respondeu
Criselda, da quina da mesa-.
__Dona Brilda? Ficou doente?
__Não, está morta! Minha querida esposa...,
coitadinha, se foi para sempre nesta noite. –Lamentou-se, senhor Cromácio-.
__Temos que remover Dona Brilda da cozinha.
Ela não pode ficar espatifada naquele chão frio. –Disse Tininha,
energicamente-.
__Passei pela cozinha agora a pouco, acabo
de fazer um lanchinho. Dona Brilda não estava lá.
__Não estava, Sisquinha? –Perguntou Nico-.
__Não!
__Talvez ela ainda esteja viva! –Disse o senhor
Cromácio, enxugando suas lágrimas-.
Nico
aproximou-se do senhor Cromácio, tocou seu ombro, e falou olhando diretamente
nos olhos dele:
__Sinto muito, mas tenho certeza que foi
Dona Brilda que a cozinheira matou.
Amargurado,
senhor Cromácio foi para o canto da sala, Tininha entristecida, seguiu-o
tentando confortá-lo. O silêncio pairou na sala. Nico fechou seus olhos,
começou a relembrar às vezes em que viu Dona Brilda dançar a valsa. Ela
rodopiava alegre pelo salão, a passos leves.
__Que grande valsista, foi está barata!
–Suspirou Nico, entretido em suas lembranças-.
Sisquinha aproximou-se de
Criselda e cochichou:
__Acabei de ter uma idéia! Quer ouvi-la?
__Agora não, Sisquinha! Eu resolvi ir ao
quarto da cozinheira. Ela nunca mais matará uma de minhas amigas! Nesta noite,
aquela mulher cruel sentirá todo o meu veneno!
__Criselda, espere! Ouça primeiro a minha
idéia.
__Diga logo, porque estou com pressa... .
__Podemos tentar trazer Dona Brilda de
volta.
Senhor
Cromácio levantou sua cabeça, olhou para Tininha espantado e perguntou:
__Você ouviu o que ela disse?
Tininha
correu em direção a mesa, depois perguntou:
__Vocês duas aí em cima, sobre o que estão
falando?
__Eu tive uma idéia, podemos tentar trazer
Dona Brilda de volta. –Respondeu Sisquinha, voando para perto de Nico-.
__Como? –Perguntou ansioso, senhor Cromácio-.
__Vamos voltar o tempo. Está é a única forma
de Dona Brilda não entrar na cozinha!
__Boa idéia, Sisquinha! –Sorriu, senhor
Cromácio-.
__Porque não pensei nisto antes! –Resmungou
Tininha-.
__Vamos voltar o tempo! –Gritou animado,
Nico-.
__Brilhante idéia, Sisquinha. -Disse
Criselda, descendo da mesa-.
Todos entre olharam-se em
silêncio. Impaciente, Tininha respirou fundo e perguntou a Sisquinha:
__Você pode nos explicar como vamos fazer o
tempo voltar?
Sisquinha
voou até o relógio de pêndulo, pendurado no alto da estante de livros e falou:
__É simples, vamos voltar os ponteiros deste
relógio!
__Vamos, gritou senhor Cromácio para todos!
Não temos mais tempo a perder!
Criselda
atirou uma teia no relógio, como ponte. Tininha agarrou-se nas costas de Nico, senhor
Cromácio resolveu segui-los, enquanto preparavam-se para escalar a estante de
livros, ouviram algumas tossidas: Do fundo da sala havia saltado por uma fresta
no assoalho, a pulga Neca. Rapidamente ela limpou a poeira de seu rosto e
ajeitou seu laço rosa, no alto da cabeça.
__Boa noite! Eu também gostaria de
ajudá-los.
__Não, gritou Criselda! Você foi expulsa do
último baile, por dançar girando para o lado esquerdo, enquanto todos nós
girávamos para o lado direito.
__Quieta Criselda! Todos que quiserem trazer
Brilda de volta, serão bem vindos. -Ralhou, senhor Cromácio-.
Neca
sorriu e começou a alongar os músculos de suas pernas, preparando-se para o seu
melhor salto, rumo ao relógio. Tininha segurou-se forte nos pêlos de Nico,
olhou para os seus amigos e comandou:
__Vamos, o tempo está passando!
Antes
que começassem a escalar a estante de livros, ouviram um forte estrondo que os
emudeceu. Uma grave voz começou a falar-lhes:
__Nem pensem em tocar nos meus ponteiros!
Pensavam que eu não podia ouvi-los daqui de cima? Se chegarem perto de mim, vou
atirar todos os meus parafusos em você! –Ameaçou o relógio de pêndulos-.
Com
lagrimas nos olhos, senhor Cromácio ajoelhou-se e implorou:
__Por favor, tudo o que eu lhe peço é que
retorne poucas horas. Está é a única forma de voltar ao passado e impedir que
minha esposa entre na cozinha.
__Eu não quero voltar ao passado!
–Irritou-se, o relógio-.
__Relógio, egoísta! Gritou Tininha, com os
punhos fechados-.
__Eu vou aí em cima, torcer os seus
ponteiros e puxar seus pêndulos. –Berrou, Nico-
__Venha, rato orelhudo!
__Não fale assim com Nico, relógio
arrogante. –Irritou-se, Criselda-.
__Parem de brigar!
Todos
entre olharam-se.
__De onde vem está voz? –Perguntou
Sisquinha-.
__Aqui, do lado de fora. –Respondeu Anim,
batendo no vidro-.
Curiosos,
eles correram para a janela encarando Anim, que se assustou com tantos olhares
sobre ele.
__O que você faz aí fora? –Perguntou Neca, franzindo
as sobrancelhas, com as mãos na cintura-.
Uma
gota de chuva caiu na frente de Anim, nela ele viu a imagem de Dona Brilda. Com
um sorriso, ela lhe passou uma rápida mensagem.
__Trago um recado de Dona Brilda.
__Ela morreu! –Falou, senhor Cromácio-.
__Não! Ela está dançando a valsa entre as
estrelas. Elas piscam quando Dona Brilda passa por elas, vejam!
Todos
olharam para o céu e sorriram... . Anim ascendeu sua luz e voou.
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