quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Meu conto infantil

Por: Mônica Comenale     


A Valsa


Numa pequena cidade escondida no alto das montanhas, a lua cheia iluminava ruas sinuosas e estreitas. Sapos e grilos limpavam suas gargantas para começarem mais uma noite de sinfonia. Corujas inquietas ocupavam os galhos das árvores, morcegos voavam sobre os telhados das casas. Anim um pequeno vaga-lume, pousou no parapeito da janela de uma bela casa, para tomar fôlego depois de mais um de seus longos vôos. Ele respirou fundo, alongou suas patas e esticou ainda mais suas delicadas antenas, depois sem cerimônia espiou ao que se passava através do vidro. Seus olhinhos curiosos brilharam ao deparar-se com a ampla e requintada sala, decorada com o requinte próprio de uma família abastada. Anim ficou fascinado pelo grande lustre com coloridas pedras preciosas, que pendia do teto sobre a mesa de jantar. Não havia ninguém naquele recinto, surgiu-lhe a idéia de voar dentro da sala, ele desejou ver mais de perto o lustre, logo começou a procurar uma fresta entre a janela por onde pudesse passar, quando ouviu:
__Estão todos dormindo! Ouviram? Estão todos dormindo! Vamos, saiam logo! Precisamos treinar a valsa, faltam apenas dois dias para o baile de sábado à noite! –Gritou Tininha à irrequieta formiga, enquanto andava de um lado para o outro-.
Do alto da estante de livros deslizou por um fino fio de teia, Criselda a aranha, que bocejou calmamente, depois resmungou:
__Que tédio..., tenho que passar o dia, me escondendo nos cantos da casa!
Por debaixo da porta passou Nico, um ratinho cinza, que logo começou a correr desnorteado por todos os lados da sala.
__Nico! Pare de correr, ninguém está atrás de você! –Gritou espantada, Tininha-.
            Criselda pulou da estante, ligeiramente escalou a mesa de jantar, sobre ela passou a correr de um lado para o outro, tentando observar o que se passava com Nico.
__Pare Nico! Pare de correr como louco, vai acabar se machucando! –Brava gritou novamente, Tininha-.
Nico ofegante parou diante de Tininha, que logo lhe censurou:
__Acalme-se, Nico! Parece doido, correndo para todos os lados... .
__Oh, que lastima... ! Coitadinha, que triste fim... . Que triste fim, coitadinha... .
Lágrimas começaram a escorrer dos pequenos olhos de Nico, eram tantas que pingavam no chão.
__O que aconteceu, Nico? –Perguntou aflita, Tininha-.
__Coitadinha..., ela não teve tempo..., foi pega de surpresa... . –Respondeu Nico, sem poder conter seu próprio choro-.
__Quem Nico? Quem? –Berrou Tininha, o quanto pode-.
__Dona Brilda! –Respondeu tristemente, Nico-.
__Dona Brilda? Ela foi capturada, Nico? –Perguntou Criselda do alto da mesa-.
__Não, Criselda. Dona Brilda acaba de ser morta, foi espatifada no chão da cozinha por certeiras chineladas, pela nova cozinheira que foi contratada.
__Oh, que terrível morte a de Dona Brilda!
__Horrível! Nenhuma barata deveria morrer como Dona Brilda. Está casa não será mais a mesma sem ela, minha amiga, minha confidente, minha querida Dona Brilda!
__Dona Brilda..., tão amiga, uma grande dançarina. –Lembrou-se Tininha, com pesar-.
__Eu vou até a cozinha, talvez Dona Brida ainda esteja viva... .
__Não Criselda, a cozinheira ainda deve estar por lá, pode ser perigoso. Eu tenho certeza que ela morreu.
__Quem morreu? –Perguntou o senhor Cromácio, após surgir veloz por debaixo da porta-.
            O silêncio invadiu a sala, o que fez com que o senhor Cromácio voltasse a perguntar:
__Quem morreu?
            Novamente não houve resposta. Impaciente, senhor Cromácio encarou Tininha perguntando:
__Onde está a minha esposa?
__Na cozinha! –Ao final da frase, Tininha começou a chorar-.
__Vou até ela. –Respondeu intrigado, senhor Cromácio-.
__Não! –Gritou Criselda-
__Por que não? O que está acontecendo aqui?
__Uma tragédia! –Disse Nico, inconformado-
            Espantado, senhor Cromácio olhou em direção a fresta da porta e preparou-se para correr rumo à cozinha, mas foi impedido por todos, ao perceberem sua intenção.
__Saiam da minha frente! –Esbravejou, senhor Cromácio-.
__Acalme-se. Nico precisa lhe contar algo. –Disse Criselda-.
__Eu? Eu não, eu não! –Disse Nico-.
__Você é um rato! Um grande roedor, coragem! O senhor Cromácio precisa saber o que houve com Dona Brilda. –Falou Criselda-.
__Onde está a minha adorada esposa? Brilda... .
            Nico aproximou-se do senhor Cromácio, e com novas lágrimas em seus olhos contou-lhe tudo o que viu na cozinha.
__Oh, minha Brilda. Porque a deixei sozinha, para vasculhar os bueiros da cidade. Se ao menos eu estivesse ao seu lado, a maldosa cozinheira não a teria matado... . Minha pobre Brilda, estraçalhada no chão da cozinha... . Tornei-me um triste viúvo está noite!

            Pelo buraco da fechadura surgiu voando Sisquinha, uma pequena mosca que tocava seu sonoro zumbido na orquestra do baile.
__Boa noite! Peço desculpas a todos, por meu atraso. –Cumprimentou-os, batendo suas asinhas com seu sorriso simpático, depois de pousar sobre o candelabro da mesa-.
            Sisquinha logo percebeu que seus amigos choravam preocupada perguntou:
__O baile foi cancelado? Por isso vocês estão chorando?
__Não, choramos por Dona Brilda! –Respondeu Criselda, da quina da mesa-.
__Dona Brilda? Ficou doente?
__Não, está morta! Minha querida esposa..., coitadinha, se foi para sempre nesta noite. –Lamentou-se, senhor Cromácio-.
__Temos que remover Dona Brilda da cozinha. Ela não pode ficar espatifada naquele chão frio. –Disse Tininha, energicamente-.
__Passei pela cozinha agora a pouco, acabo de fazer um lanchinho. Dona Brilda não estava lá.
__Não estava, Sisquinha? –Perguntou Nico-.
__Não!
__Talvez ela ainda esteja viva! –Disse o senhor Cromácio, enxugando suas lágrimas-.
            Nico aproximou-se do senhor Cromácio, tocou seu ombro, e falou olhando diretamente nos olhos dele:
__Sinto muito, mas tenho certeza que foi Dona Brilda que a cozinheira matou.
            Amargurado, senhor Cromácio foi para o canto da sala, Tininha entristecida, seguiu-o tentando confortá-lo. O silêncio pairou na sala. Nico fechou seus olhos, começou a relembrar às vezes em que viu Dona Brilda dançar a valsa. Ela rodopiava alegre pelo salão, a passos leves.
__Que grande valsista, foi está barata! –Suspirou Nico, entretido em suas lembranças-.
Sisquinha aproximou-se de Criselda e cochichou:
__Acabei de ter uma idéia! Quer ouvi-la?
__Agora não, Sisquinha! Eu resolvi ir ao quarto da cozinheira. Ela nunca mais matará uma de minhas amigas! Nesta noite, aquela mulher cruel sentirá todo o meu veneno!
__Criselda, espere! Ouça primeiro a minha idéia.
__Diga logo, porque estou com pressa... .
__Podemos tentar trazer Dona Brilda de volta.
            Senhor Cromácio levantou sua cabeça, olhou para Tininha espantado e perguntou:
__Você ouviu o que ela disse?
            Tininha correu em direção a mesa, depois perguntou:
__Vocês duas aí em cima, sobre o que estão falando?
__Eu tive uma idéia, podemos tentar trazer Dona Brilda de volta. –Respondeu Sisquinha, voando para perto de Nico-.
__Como? –Perguntou ansioso, senhor Cromácio-.
__Vamos voltar o tempo. Está é a única forma de Dona Brilda não entrar na cozinha!
__Boa idéia, Sisquinha! –Sorriu, senhor Cromácio-.
__Porque não pensei nisto antes! –Resmungou Tininha-.
__Vamos voltar o tempo! –Gritou animado, Nico-.
__Brilhante idéia, Sisquinha. -Disse Criselda, descendo da mesa-.
Todos entre olharam-se em silêncio. Impaciente, Tininha respirou fundo e perguntou a Sisquinha:
__Você pode nos explicar como vamos fazer o tempo voltar?
            Sisquinha voou até o relógio de pêndulo, pendurado no alto da estante de livros e falou:
__É simples, vamos voltar os ponteiros deste relógio!
__Vamos, gritou senhor Cromácio para todos! Não temos mais tempo a perder!
            Criselda atirou uma teia no relógio, como ponte. Tininha agarrou-se nas costas de Nico, senhor Cromácio resolveu segui-los, enquanto preparavam-se para escalar a estante de livros, ouviram algumas tossidas: Do fundo da sala havia saltado por uma fresta no assoalho, a pulga Neca. Rapidamente ela limpou a poeira de seu rosto e ajeitou seu laço rosa, no alto da cabeça.
__Boa noite! Eu também gostaria de ajudá-los.
__Não, gritou Criselda! Você foi expulsa do último baile, por dançar girando para o lado esquerdo, enquanto todos nós girávamos para o lado direito.
__Quieta Criselda! Todos que quiserem trazer Brilda de volta, serão bem vindos. -Ralhou, senhor Cromácio-. 
            Neca sorriu e começou a alongar os músculos de suas pernas, preparando-se para o seu melhor salto, rumo ao relógio. Tininha segurou-se forte nos pêlos de Nico, olhou para os seus amigos e comandou:
__Vamos, o tempo está passando!
            Antes que começassem a escalar a estante de livros, ouviram um forte estrondo que os emudeceu. Uma grave voz começou a falar-lhes:
__Nem pensem em tocar nos meus ponteiros! Pensavam que eu não podia ouvi-los daqui de cima? Se chegarem perto de mim, vou atirar todos os meus parafusos em você! –Ameaçou o relógio de pêndulos-.
            Com lagrimas nos olhos, senhor Cromácio ajoelhou-se e implorou:
__Por favor, tudo o que eu lhe peço é que retorne poucas horas. Está é a única forma de voltar ao passado e impedir que minha esposa entre na cozinha.
__Eu não quero voltar ao passado! –Irritou-se, o relógio-.
__Relógio, egoísta! Gritou Tininha, com os punhos fechados-.
__Eu vou aí em cima, torcer os seus ponteiros e puxar seus pêndulos. –Berrou, Nico-
__Venha, rato orelhudo!
__Não fale assim com Nico, relógio arrogante. –Irritou-se, Criselda-.
__Parem de brigar!
            Todos entre olharam-se.
__De onde vem está voz? –Perguntou Sisquinha-.
__Aqui, do lado de fora. –Respondeu Anim, batendo no vidro-.
            Curiosos, eles correram para a janela encarando Anim, que se assustou com tantos olhares sobre ele.
__O que você faz aí fora? –Perguntou Neca, franzindo as sobrancelhas, com as mãos na cintura-.
            Uma gota de chuva caiu na frente de Anim, nela ele viu a imagem de Dona Brilda. Com um sorriso, ela lhe passou uma rápida mensagem.
__Trago um recado de Dona Brilda.
__Ela morreu! –Falou, senhor Cromácio-.
__Não! Ela está dançando a valsa entre as estrelas. Elas piscam quando Dona Brilda passa por elas, vejam!
            Todos olharam para o céu e sorriram... . Anim ascendeu sua luz e voou.
  


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