terça-feira, 27 de outubro de 2015

Meu conto infantil

Minha Bela

Por: Mônica Comenale.


Numa tarde de verão, que se perdeu no tempo, eu a vi ainda jovem entrar na sala. Fiquei quieto no meu canto, apenas admirá-la. A jovem moça sentou-se diante da mesa, com seu sorriso de menina. Imóvel eu resistia aos aromas das delícias que vinham do chá da tarde: bolo de fubá, queijo de Minas, biscoitos de nata, broa de milho, torradas com manteiga, café, doce de laranja, geleia de morango, tudo sobre a impecável toalha branca de renda. O sol sem cerimônia alegrava o ambiente, ao atravessar a janela exibindo seus raios dourados, que pousavam sobre a mesa.
Quando me lembro daqueles dias, meu monótono presente se ilumina. A casa aconchegante em que ainda vivo, era movimentada e cheia de cores. Todos os dias eu esperava no mesmo lugar, por minha bela, que retinha o meu olhar a cada gesto, como o simples ajeitar de seus longos cabelos, ao sentar-se na mesa.
Salomão, gato presunçoso, sempre surgia desinibido para o chá da tarde. Saltava sobre uma das cadeiras, insinuando seu apetite, com reviravoltas, depois se aconchegava no colo dela, sem pedir licença. Provocava-me com o seu olhar impertinente. Imóvel, eu segurava o meu ciúme enquanto ele era afagado entre seus fartos pêlos branco, pelas mãos delicadas de minha bela. Gato astuto descobriu minha paixão, insolente se deliciava a implicar comigo, ameaçando-me por revelar meu precioso segredo. Não era apenas Salomão quem me incomodava, mas também os jovens educados e elegantes que surgiam abrindo por ela, seus corações, diante de mim. Tantas vezes eu os vi, tentando conquistá-la com flores, bombons, versos, na minha presença. Preso, eu era obrigado a suportá-los. Como eles eram diferentes de mim! Por isso, ela mal me notava, mas eu a amava, mesmo assim. Contentava-me ao sentir seu breve olhar sobre mim, todas as tardes.
Lembro-me do dia chuvoso, em que eu podia pressentir meu desgosto, Salomão com o seu sorriso malicioso, contou-me que minha bela tornara-se noiva. A notícia quebrou-me. Durante muito tempo parei, tomado de tristeza. Vieram ver-me de perto, tentaram reanimar-me, para que eu voltasse a trabalhar. Fiquei desolado, com os meus sentimentos ignorados, rendi-me ao desanimo. Deixaram de se importar comigo e eu fiquei ainda mais deprimido. Desprezado por todos, permaneci parado como forma de protesto.
O dia do casamento chegou. Quase não resisti quando a vi partir da casa onde vivíamos. A casa parecia ter perdido a vida, tudo ficara tão quieto com a ausência dela. Apático, passei pelos anos. Detestei o gosto amargo da saudade. Se ao  menos ela tivesse me levado para viver em sua casa... . Como gratidão, passaria por cada segundo de sua vida, trabalhando com amor, apenas para ela. Senti-me abandonado. Com tédio, continuei em silêncio a presenciar todos os dias o chá da tarde. Eu mantinha a esperança em revê-la como antes, sentando-se diante da mesa com os demais. Esperei-a por tantas tardes... . Desejei voltar às horas, apenas para reencontrá-la por um minuto, no passado.
Numa manhã fria, resolveram que eu precisava de companhia. Creio que depois de tanto tempo, perceberam a minha solidão. Sobre a escrivaninha no canto da sala, colocaram um aquário com um lindo peixinho azul. Como não lhe deram um nome, eu o chamava de Zul. Ficamos amigos. Atento, eu o observava, a cada peripécia aquática. O franzino Zul libertou-me da fatigante monotonia, distraindo-me como ninguém. Durante a noite, depois que todos se recolhiam para dormir, eu e Zul conversávamos. Ele também sofria por amor. Contou-me que certo dia fora separado de sua amada, uma peixinha dourada, por uma rede que atravessou o tanque. O apanharam de surpresa junto com seus amigos, depois o venderam para a loja onde mais tarde, o compraram trazendo-o para casa. Eu fingia não notar, mas muitas vezes o vi chorar por sua amada, no canto do aquário. Triste, às vezes ele se escondia atrás de uma alga marinha, por horas. Eu tentava ajudar Zul como podia, mas faltava-me palavras para consolá-lo.
Salomão percebeu nossa amizade. Ciumento, tramou afastar-nos. Um dia depois do almoço, com a casa quieta, cochilei despreocupado. Não demorou muito e fui acordado. Salomão arrogante, invadiu a sala com seus sonoros miados. Impiedoso, ele subiu na cadeira, logo depois pulou sobre a escrivaninha e por lá ficou a encarar, Zul. Equilibrando-se, levantou uma pata, ameaçando puxar meu amigo do fundo d’água. Agoniado eu tentei expulsá-lo da sala, mas atrevido, ele insultava-me com o seu olhar, a cada investida diante do aquário. Tentei afugentá-lo gritando o quanto pude, ao vê-lo cada vez mais próximo do meu pequeno amigo, que nadava desnorteado em seu desespero. Quanto mais eu esperneava, mais Salomão me ignorava. Em pânico eu o vi enfiar sua cara na água tentando engolir Zul. Ah, se meu amigo não fosse tão ágil em seus mergulhos... . Eu precisava impedir Salomão, antes que ele conseguisse matar, Zul. Não podia mais continuar parado, com dificuldade, comecei mexer-me. Eu estalava a cada gesto que fazia, minhas juntas doíam, deviam estar enferrujadas. Zul lutava aflito para continuar vivo, eu queria ajudá-lo. Sem desistir, esforcei-me o quanto pude, consegui desemperrar e libertar meus movimentos, quando ouvi a porta se abrir. Salomão assustou-se arrepiando seus pêlos, ao perceber que alguém se aproximava. Ligeiro, alcançou o parapeito da janela, virou para olhar-me antes de saltar entre os arbustos do jardim. Respirei aliviado, mas indignado com aquele gato malvado. Zul cansado foi restabelecer-se entre umas plantinhas.
Eu não podia acreditar em meus olhos ou simplesmente conter o disparo de meu coração. Minha bela era quem acabara de entrar, sentando-se diante da mesa. Quieta, percorreu com o seu olhar cada centímetro da sala, como se estivesse relembrando. Seus cabelos tornaram-se curtos, e seus lábios guardavam o sorriso fácil que costumava pousar em seu rosto. Ela estava tão perto de mim agora, que eu podia sentir seu perfume vindo pela agradável brisa da janela. Embora anos tivessem passado, desde a última vez que a vi, notei que algo a abatia, pareceu-me preocupada.
Eu a conhecia o suficiente para saber o quanto estava triste. Com a presença dela, animei-me a trabalhar depois de tanto tempo parado. Enquanto preparava-me para recomeçar meu ofício, pensei que a vi nascer, crescer, desabrochar, casar. Agora a vejo exibir seus primeiros fios de cabelos brancos. Ela ainda era a mesma, estava um pouco parada, assim como eu, que fiquei durante anos imóvel. Senti com alegria minhas engrenagens voltarem a funcionar,
sem que eu planejasse, meu tempo de recomeçar chegara. Meus ruídos fizeram-na sorrir, quando descobri a saudade dela por mim. Comecei a trabalhar, marcando o tempo e dizendo: Tic-tac, tic-tac, tic-tac, como sempre diz qualquer relógio apaixonado.


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