Minha Bela
Por: Mônica Comenale.
Numa tarde de verão, que se perdeu no tempo,
eu a vi ainda jovem entrar na sala. Fiquei quieto no meu canto, apenas
admirá-la. A jovem moça sentou-se diante da mesa, com seu sorriso de menina. Imóvel
eu resistia aos aromas das delícias que vinham do chá da tarde: bolo de fubá,
queijo de Minas, biscoitos de nata, broa de milho, torradas com manteiga, café,
doce de laranja, geleia de morango, tudo sobre a impecável toalha branca de
renda. O sol sem cerimônia alegrava o ambiente, ao atravessar a janela exibindo
seus raios dourados, que pousavam sobre a mesa.
Quando me lembro daqueles dias, meu monótono
presente se ilumina. A casa aconchegante em que ainda vivo, era movimentada e
cheia de cores. Todos os dias eu esperava no mesmo lugar, por minha bela, que
retinha o meu olhar a cada gesto, como o simples ajeitar de seus longos cabelos,
ao sentar-se na mesa.
Salomão, gato presunçoso, sempre surgia
desinibido para o chá da tarde. Saltava sobre uma das cadeiras, insinuando seu
apetite, com reviravoltas, depois se aconchegava no colo dela, sem pedir
licença. Provocava-me com o seu olhar impertinente. Imóvel, eu segurava o meu
ciúme enquanto ele era afagado entre seus fartos pêlos branco, pelas mãos
delicadas de minha bela. Gato astuto descobriu minha paixão, insolente se
deliciava a implicar comigo, ameaçando-me por revelar meu precioso segredo. Não
era apenas Salomão quem me incomodava, mas também os jovens educados e elegantes
que surgiam abrindo por ela, seus corações, diante de mim. Tantas vezes eu os
vi, tentando conquistá-la com flores, bombons, versos, na minha presença.
Preso, eu era obrigado a suportá-los. Como eles eram diferentes de mim! Por
isso, ela mal me notava, mas eu a amava, mesmo assim. Contentava-me ao sentir
seu breve olhar sobre mim, todas as tardes.
Lembro-me do dia chuvoso, em que eu podia
pressentir meu desgosto, Salomão com o seu sorriso malicioso, contou-me que
minha bela tornara-se noiva. A notícia quebrou-me. Durante muito tempo parei,
tomado de tristeza. Vieram ver-me de perto, tentaram reanimar-me, para que eu
voltasse a trabalhar. Fiquei desolado, com os meus sentimentos ignorados,
rendi-me ao desanimo. Deixaram de se importar comigo e eu fiquei ainda mais
deprimido. Desprezado por todos, permaneci parado como forma de protesto.
O dia do casamento chegou. Quase não resisti
quando a vi partir da casa onde vivíamos. A casa parecia ter perdido a vida,
tudo ficara tão quieto com a ausência dela. Apático, passei pelos anos.
Detestei o gosto amargo da saudade. Se ao menos ela tivesse me levado para viver em sua
casa... . Como gratidão, passaria por cada segundo de sua vida, trabalhando com
amor, apenas para ela. Senti-me abandonado. Com tédio, continuei em silêncio a
presenciar todos os dias o chá da tarde. Eu mantinha a esperança em revê-la
como antes, sentando-se diante da mesa com os demais. Esperei-a por tantas
tardes... . Desejei voltar às horas, apenas para reencontrá-la por um minuto, no
passado.
Numa manhã fria, resolveram que eu precisava
de companhia. Creio que depois de tanto tempo, perceberam a minha solidão.
Sobre a escrivaninha no canto da sala, colocaram um aquário com um lindo
peixinho azul. Como não lhe deram um nome, eu o chamava de Zul. Ficamos amigos. Atento, eu o
observava, a cada peripécia aquática. O franzino Zul libertou-me da fatigante
monotonia, distraindo-me como ninguém. Durante a noite, depois que todos se
recolhiam para dormir, eu e Zul conversávamos. Ele também sofria por amor.
Contou-me que certo dia fora separado de sua amada, uma peixinha dourada, por
uma rede que atravessou o tanque. O apanharam de surpresa junto com seus
amigos, depois o venderam para a loja onde mais tarde, o compraram trazendo-o
para casa. Eu fingia não notar, mas muitas vezes o vi chorar por sua amada, no
canto do aquário. Triste, às vezes ele se escondia atrás de uma alga marinha,
por horas. Eu tentava ajudar Zul como podia, mas faltava-me palavras para
consolá-lo.
Salomão percebeu nossa amizade. Ciumento,
tramou afastar-nos. Um dia depois do almoço, com a casa quieta, cochilei
despreocupado. Não demorou muito e fui acordado. Salomão arrogante, invadiu a
sala com seus sonoros miados. Impiedoso, ele subiu na cadeira, logo depois
pulou sobre a escrivaninha e por lá ficou a encarar, Zul. Equilibrando-se, levantou
uma pata, ameaçando puxar meu amigo do fundo d’água. Agoniado eu tentei
expulsá-lo da sala, mas atrevido, ele insultava-me com o seu olhar, a cada
investida diante do aquário. Tentei afugentá-lo gritando o quanto pude, ao
vê-lo cada vez mais próximo do meu pequeno amigo, que nadava desnorteado em seu
desespero. Quanto mais eu esperneava, mais Salomão me ignorava. Em pânico eu o
vi enfiar sua cara na água tentando engolir Zul. Ah, se meu amigo não fosse tão
ágil em seus mergulhos... . Eu precisava impedir Salomão, antes que ele
conseguisse matar, Zul. Não podia mais continuar parado, com dificuldade, comecei mexer-me.
Eu estalava a cada gesto que fazia, minhas juntas doíam, deviam estar
enferrujadas. Zul lutava aflito para continuar vivo, eu queria ajudá-lo. Sem
desistir, esforcei-me o quanto pude, consegui desemperrar e libertar meus
movimentos, quando ouvi a porta se abrir. Salomão assustou-se arrepiando seus
pêlos, ao perceber que alguém se aproximava. Ligeiro, alcançou o parapeito da
janela, virou para olhar-me antes de saltar entre os arbustos do jardim.
Respirei aliviado, mas indignado com aquele gato malvado. Zul cansado foi
restabelecer-se entre umas plantinhas.
Eu não podia acreditar em meus olhos ou
simplesmente conter o disparo de meu coração. Minha bela era quem acabara de
entrar, sentando-se diante da mesa. Quieta, percorreu com o seu olhar cada
centímetro da sala, como se estivesse relembrando. Seus cabelos tornaram-se
curtos, e seus lábios guardavam o sorriso fácil que costumava pousar em seu
rosto. Ela estava tão perto de mim agora, que eu podia sentir seu perfume vindo
pela agradável brisa da janela. Embora anos tivessem passado, desde a última
vez que a vi, notei que algo a abatia, pareceu-me preocupada.
Eu a conhecia o suficiente para saber o
quanto estava triste. Com a presença dela, animei-me a trabalhar depois de
tanto tempo parado. Enquanto preparava-me para recomeçar meu ofício, pensei que
a vi nascer, crescer, desabrochar, casar. Agora a vejo exibir seus primeiros fios
de cabelos brancos. Ela ainda era a mesma, estava um pouco parada, assim como
eu, que fiquei durante anos imóvel. Senti com alegria minhas engrenagens
voltarem a funcionar,
sem que eu planejasse, meu tempo de recomeçar chegara. Meus ruídos
fizeram-na sorrir, quando descobri a saudade dela por mim. Comecei a trabalhar,
marcando o tempo e dizendo: Tic-tac, tic-tac, tic-tac, como sempre diz qualquer
relógio apaixonado.
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